Tudo sobre minha mãe


Kolynos

Você se lembra daquela Kombi verde? Não é fantasia minha. Ontem, quando subia a avenida, distraída como sempre, parei no semáforo e olhei no retrovisor, lá estava ela. Não é história minha, eu vi pelo retrovisor. Ele não tem rosto. Consegue imaginar alguém sem nariz, lábios. Eram apenas buracos. Sim, tinha olhos, mas eram escuros, muito escuros. Percebeu que eu o olhava e sorriu para mim com os dentes. Não ria, é verdade, ele riu com os dentes. Como é possível isso? Sei lá! Só sei que aquilo era um sorriso. O que eu poderia fazer? Sorri para ele também, meio sem graça, como quem é pego fazendo o que não deve. Fiz cara de paisagem. Depois, nada! O sinal abriu e tomei meu rumo. Levei para casa uns quadros. Acordei com vontade de mudar um pouco as coisas. A sala continua triste, os móveis não ajudam, são muito pesados, escuros. Não gosto de falar sobre isso. Os erros que cometemos não desaparecem quando falamos deles. Essa coisa de verbalizar tudo o que sentimos e pensamos é uma tremenda besteira. Oh, sim. As palavras dão forma aos medos atávicos e blablablablablá. Mas quem é que fica comigo, quando à noite, completamente só resolvo escrever sobre tudo o que se passou? Você? Ora, arrá! Nem consegue manter os olhos abertos depois das dez da noite. Consegue dormir assistindo ao Exorcista! Sim, estou melhor. Eles me ligaram ontem e eu disse que não iria. Você sabe que eu não a suporto, não consigo olhar para ela, sentir o cheiro dela, não gosto do jeito que ela fala. Sim, tenho vergonha dela. E não era para ter? Tenha dó. Não me venha com essa pieguice, com esse moralismo de botequim. Não sou obrigada a gostar dela! Agora chega, não sei o que você quer. Foi pago por alguém? Até quando terei de suportar isso?



Escrito por Tania Cosci às 17h07
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são demais os perigos dessa vida.

Pois é, hoje acordei com aquela sensação de que o eixo terrestre havia mudado discretamente a sua inclinação. Ao sair da cama, notei que o chão estava meio torto. Não consegui usar aquele meu sapato de salto, parecia que eu ia cair para frente, de joelhos no chão. Eu vi, passou duas vezes na televisão. Que coisa linda, o urutau. Mas, que coisa nojenta passar isso num telejornal! Mas hoje não, aquele assunto de novo? Ah, não. Hoje, não! Não posso, não quero. Amanhã receberei visitas e preciso me concentrar. Sabe o quanto me custa dividir o meu espaço. As pessoas vêm, se misturam aos móveis, deixam palavras caídas pelo chão, discursos inteiros mancham a toalha da mesa. Depois, eles se vão. Carregam um pouco da minha doce alegria, que guardo egoisticamente. Nunca me trazem flores. Sim, eu serei discreta, não os deixarei notar a minha impaciência, usarei uma máscara de criatura afável, delicada, sociável! Se só eles me incomodam assim? Não, claro que não. A culpa não é deles, é toda minha. A cada dia que passa me torno mais arrogante, tenho me sentido a mais bela das criaturas, os outros são sempre isto: outros. Mas agora chega, depois de amanhã falamos mais, eu realmente preciso de silêncio.

Escrito por Tania Cosci às 23h06
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ainda naqueles tempos

Pois é, quantas digressões. Falávamos de meu pai. Ele era bom, brincava conosco, me colocava no colo, eu o adorava. Sentia-me amada. Lembro-me de seu cheiro. Suor, cigarro e cimento. Suas roupas eram simples, calças retas, camisas com bolsos para colocar o maço de cigarros, cinta e uma botina. Nos dias de folga, bermuda e um chinelo, nunca de dedos, mas de tiras largas de couro. Andava sempre ereto, com porte elegante. Tinha bom humor, mas em seus rompantes era grosseiro e boca-suja. Dizia impropérios, xingava a Deus e a todos os santos, da Virgem Maria dizia coisas terríveis. Às vezes, sentava-se embaixo do abacateiro e ficava ouvindo seus muitos canários cantar. Tínhamos um viveiro enorme, cheio de lindos e coloridos passarinhos. Meu sonho era abrir a portinhola e deixá-los voar, mas ele me dizia que aqueles pobrezinhos morreriam de fome, pois estavam habituados a comida farta e fácil. Cresci sabendo diferenciar o canto de curiós, canários e pintassilgos. Hoje, mal sei a diferença entre um sabiá e um bem-te-vi. Os pássaros ficaram para trás, como os cachorros. Os muitos que tivemos. No começo, meu pai os odiava, maltratava-os, sempre que possível chutava um deles. Penso que era como se ele se chutasse, cão sarnento que todos desprezam. Fora homem bonito, esperançoso, tinha dentes perfeitos e os olhos brilhantes, sabia tocar violão e dançava muito bem. Depois o casamento, os quatro filhos, o golpe militar, o desemprego, a mudança de cidade, a fome. Fomos morar com a mãe dele, mulher dura e seca. Árvore velha em que os frutos morrem antes de amadurecer. A casa era antiga, de amplos quartos e telhado alto com o madeiramento à mostra. Sonhei algumas vezes com homenzinhos que brincavam nessas vigas e me convidavam para ir junto. Talvez, fossem gnomos! Eu acredito em gnomos!

Tudo bem, tudo bem. Não estamos aqui para ironias, nem brincadeiras. Falemos sério. Uma de minhas lembranças mais felizes? Ah, o dia em que ganhei um pato, meu pato. Meu irmão e eu fomos buscá-lo na casa de uma tia de minha mãe. Ele já tinha perdido aquelas pluminhas amarelas, mas era lindo do mesmo jeito. Trouxe-o apertado ao meu peito, suas patinhas laranjas emborrachadas não paravam quietas, unhas fininhas me arranhavam o braço. Em casa, fiz laguinhos cercados com pedregulhos redondos, branquinhos. Era a minha versão do lago dos cisnes, mas na minha história não havia caçadores. Meu pato cresceu, ficou enorme. De asas abertas, de uma ponta a outra tinha mais de um metro. Era lindo, pomposo, andava engraçado como todo pato. Eu era a única menina da rua que andava com um pato. No meu quintal ninguém se atrevia a entrar sem aviso, meu pato abaixava o pescoço e como uma seta atacava o invasor. Sobravam bicadas para todo lado. Quando ele morreu, de gripe, pois lhe dei água gelada para refrescar-se, felizmente havia uma gata com uma ninhada ocupando-me o tempo todo. Muitos gatinhos fofos, de barriguinha redonda e olhinhos fechados necessitando dos meus cuidados. Também tinha um pássaro preto que adorava meus afagos. Se eu era feliz? Novamente essa pergunta. Acho que eu era, dentro daquela melancolia toda havia dias felizes. Podemos continuar amanhã? Estou realmente cansada. Esta cadeira é dura, minhas costas doem, estou com sono. Por favor?

Escrito por Tania Cosci às 15h06
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naqueles tempos

Não íamos à missa como as outras crianças. Meu pai dizia que isso tudo era bobagem, que padres e freiras eram um bando de safados. Minha mãe rezava pelos cantos da casa. Quando chovia, eu tremia de medo. Depois de vários temporais ouvindo minha mãe clamar por Santa Bárbara, o mais novo dos meus irmãos e eu nos escondíamos debaixo da mesa. Tínhamos medo de que o teto caísse e na nossa inocência críamos piamente que a mesa nos protegeria. Naquele tempo nós não sabíamos, mas havia barricadas dentro de nossa casa. Uma delas ficava no nosso quarto, enorme cômodo, sempre escuro, dividido por cortinas. Quando as discussões começavam, corríamos para lá. Escondíamo-nos entre um guarda-roupa velho e a parede torta. Ninguém podia imaginar que estávamos todos lá. A outra ficava na cozinha, embaixo da escada que levava ao porão, porque toda casa tem um porão, mesmo que não tenha.

Você me perguntou do meu pai. Talvez pensando que há algo especial a dizer.... Bem, ele é um homem forte. É daqueles homenzinhos de mais ou menos um metro e meio. Magro, muito magro e branco. Ao sol, sua pele deixava à mostra as veias grossas e azuladas, os ossos revestidos de pouca carne. Via-o, as vezes, com meio corpo fora da janela, olhando para o tempo. Com certo embaraço, percebia que ele assim tão branco, tão magro não combinava com aquele sol, com o azul e com as florzinhas miúdas que ficavam atrás da janela. Parecia um fantasma, o meu pai. Um dia, sonhei que ele havia morrido e que todos nós, mãe e os quatro filhos, íamos visitá-lo no cemitério. Ele, então, se levantava da cova, vestido mas um pouco transparente, com aspecto cansado,  com cimento nos cabelos, meu pai era pedreiro dos bons, e com aquela botina que sempre rangia. Nesse sonho, ele falava comigo e eu olhava para minha mãe esperando o seu consentimento para responder. Naquela época era assim, antes de qualquer coisa tínhamos de olhar para a mãe e perscrutar os seus olhos. Na maioria das vezes entendíamos aquelas mensagens silenciosas, mas não sempre e aí, sobravam cascudos, tapas nas orelhas, pernas, safanões e outras carícias mais. Sim, é verdade! Não gosto de me lembrar daqueles tempos. Sei que ali estão as chaves, as muitas chaves para estas também muitas portas que se abrem para muitos outros corredores infinitos, sombrios, tristes, úmidos, profundos, etc, etc, etc, etc. Isso tudo me dá um cansaço tão grande que desisto sempre antes. Não quero atravessar o Canal da Mancha, não quero ir atrás de Eurídice, não vou falar do meu medo de baratas. Fizemos um pacto, enquanto eu fizer de conta que elas não existem, me deixarão em paz! Viu, falei delas, agora corro riscos.

Escrito por Tania Cosci às 15h05
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Aqueles tempos

Preste atenção. Algumas coisas me fizeram ver o mundo não como ele é, mas como eu gostaria que fosse. Nele, os meus irmãos, os três, seriam homens bem resolvidos e felizes, livres dos preconceitos de que fomos vítimas na infância. Éramos pobres, daqueles que comiam pouco e que tinham vergonha quando comiam. Dos três, o mais velho era o mais forte, moreno como meu avô calabrês e de raciocínio rápido como o da minha avó analfabeta. Os três sempre saiam juntos, embora depois se separassem de acordo com a turma de cada um. O do meio, muito parecido com o meu pai. Olhos esverdeados, pele clara e aquele nariz que já dizia de onde vínhamos. Era o mais próximo de mim, o mais carinhoso. Com o mais novo, tudo era tenso. Ele devia se sentir só, muito só. Era o mais o novo deles e por um tempo, suponho, nunca falamos sobre essas coisas embaraçosas, o mais paparicado. Quando cheguei, anos depois, as coisas já estavam meio que estabelecidas e foi surpresa para todos. Era um lar de homens, em que minha mãe reinava absoluta. A princesinha de cabelos negros e olhos amendoados queria a atenção de todos. Nasceu com um buraco enorme por dentro e nada, ninguém podia ou conseguia preenchê-lo. Era uma casa triste, a nossa miséria nos fazia tristes. Minha mãe cantava e eu quase sempre enfiada no fundo do quintal com a cara suja e as unhas gastas, ouvia aquilo e me imaginava numa terra onde as canções eram sempre coloridas, onde o carteiro chegava, entregava a carta, que era avidamente aberta. O que se seguia era um ensolarado sorriso, porque entre mentiras risonhas e verdades tristonhas havia algo bom, qualquer coisa que fosse.

À tarde, hora triste, enfileirados íamos para o banho. Até uma certa idade, tomávamos banho todos juntos. Uma folia embaixo do grande chuveiro, com muita espuma e brincadeiras e a porta sempre bem aberta. Para jantar, o mesmo de sempre. Aquele constrangimento, aquele pouco, aquela revolta esganando-nos. Dormíamos cedo, depois de ouvir as notícias que iam e vinham no rádio velho, de válvula, herança de São Paulo. Eu acordava tarde, gostava muito de dormir. À minha espera estava o quintal e os bichos. Com eles eu me abria, contava o que havia sonhado, dizia-lhes o que eu pensava das outras crianças, das que eu conhecia, pobres como eu, e das que eu imagina, meninas vestidas de tule e sapatos de verniz. No chão, eu desenha meus palácios com seus trezentos quartos, todos com forro no teto e janelas de aço e vidro. Em nenhum dos quartos, o feio vermelhão, mas tábuas corridas, enormes, enceradas e brilhantes, tapetes gigantescos e cortinas delicadas, quase transparentes fazendo volutas no ar. Quase sempre, meus castelos eram desfeitos pelo rastelo que na manhã seguinte recolhia as folhas que caiam da mangueira e do abacateiro, ambos meus navios de guerra. Que ninguém de fora se metesse a invadi-los.

 



Escrito por Tania Cosci às 15h02
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é hoje que eu vou pra farra...

Bem, cá estou. Essas são as primeiras linhas dessa minha incursão por esse universo. Gostaria de escrever coisas incríveis, pretensiosa que sou. Mas, como não tenho a genialidade de um Kafka ou Guimarães Rosa, me contento em saber que conheço algumas regras de concordância e regência e alguns sinais de pontuação. Se sou filha dessa pátria e se falo português, por que não? Afinal, aqui onde estou há um céu azul de doer os olhos, um sol quente de dissolver o mais empedernido dos corações, uma leve brisa, quente. Agora, se me permitem, vou colocar minha calça jeans, meu casaco de couro, minha bota de mulher gato e me sentar no meio do asfalto em pose de monge budista. Ah, sim, não posso me esquecer do meu chapéu de coco, nem do meu cigarro de palha. O cafezinho fica pra volta, às cinco da tarde.

Inté!

Tania.



Escrito por Tania Cosci às 14h52
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